Tarô de Thoth

· 5 min de leitura · Por Equipe Tarólogo IA

Tarô de Thoth — O Baralho de Aleister Crowley

O Tarô de Thoth é um dos baralhos mais fascinantes, complexos e artisticamente revolucionários já criados. Desenvolvido entre 1938 e 1943 pelo ocultista britânico Aleister Crowley (1875–1947) e ilustrado pela artista Frieda Harris (1877–1962), ele representa a síntese de décadas de estudo de Crowley em astrologia, Cabala, alquimia, numerologia, religião comparada e seu próprio sistema filosófico-espiritual chamado Thelema.

Publicado postumamente em 1969 (Crowley morreu em 1947 sem ver a obra finalizada publicada), o Thoth rapidamente se tornou um dos baralhos mais estudados do mundo — apreciado tanto por sua profundidade esotérica quanto pela beleza hipnótica de suas imagens, criadas com uma técnica chamada geometria projetiva.

Aleister Crowley e sua Visão

Crowley é uma figura controversa — seu estilo provocativo, seu comportamento escandaloso e seu uso deliberado de símbolos perturbadores para chocar a moralidade vitoriana lhe renderam o apelido de “o homem mais perverso do mundo” em sua época. Mas por trás da persona provocativa havia um erudito genuíno — possivelmente um dos mais profundos estudiosos de ocultismo ocidental de seu tempo.

Para o Tarô de Thoth, Crowley partiu do sistema da Golden Dawn (da qual havia sido membro, embora depois tenha rompido com a ordem) e o transformou radicalmente, incorporando seu próprio sistema Thelema, cujo livro sagrado — o Livro da Lei (Liber AL vel Legis) — foi, segundo Crowley, ditado a ele por uma entidade chamada Aiwass em 1904.

O título “Thoth” é uma referência ao deus egípcio da sabedoria, magia, escrita e luas — o portador do conhecimento dos deuses para a humanidade, o autor mítico do Livro dos Mortos. Para Crowley, o Tarô era um repositório de sabedoria antiga que estava conectado às tradições egípcias (entre outras), e Thoth era seu patrono espiritual.

Lady Frieda Harris e a Geometria Projetiva

A parceria entre Crowley e Harris foi um dos encontros mais frutíferos da história do Tarô. Harris era uma artista culta e independente, estudiosa da filosofia de Rudolf Steiner e devotada à geometria projetiva — um ramo da matemática que estuda as relações de perspectiva e projeção.

Harris propôs usar a geometria projetiva como estrutura visual para as cartas, criando a sensação de profundidade, movimento e transformação que torna as imagens do Thoth tão hipnóticas. As formas geométricas que aparecem nas cartas — espirais, pirâmides, dodecaedros, esferas interlaçadas — não são decoração: são a estrutura fundamental da composição visual, expressando matematicamente os princípios espirituais que cada carta representa.

O processo de criação foi longo e às vezes tenso — Crowley era exigente e Harris nem sempre concordava com suas instruções. A correspondência entre os dois, que sobreviveu, revela um diálogo criativo rico e às vezes conflituoso que produziu algo que nenhum dos dois poderia ter criado sozinho.

Diferenças em Relação ao Rider-Waite-Smith

O Thoth difere do Rider-Waite-Smith (o baralho mais popular do mundo) em vários aspectos fundamentais:

Renomeação de cartas: várias cartas têm nomes diferentes. A Força se chama Lust (Luxúria). O Julgamento se chama O Eon. A Roda da Fortuna se chama A Fortuna. A Justiça se chama Ajuste. O Mundo se chama O Universo.

Reposicionamento de cartas: a troca entre Força e Justiça (que Waite fez) foi revertida por Crowley para refletir correspondências astrológicas que ele considerava mais corretas. A Força (Lust) voltou a ser o arcano VIII e a Justiça (Ajuste) voltou a ser XI.

Figuras da corte: em vez de Valete, Cavaleiro, Rainha e Rei, o Thoth usa Princesa, Príncipe, Rainha e Cavaleiro — e as hierarquias e correspondências elementais são diferentes.

Ausência de cenas narrativas nos Arcanos Menores: enquanto o RWS tem cenas ilustradas em cada carta menor (como a famosa imagem da pessoa com espadas no Três de Espadas), o Thoth usa composições geométricas abstratas com os símbolos do naipe — mais próximo da tradição do Tarô de Marselha, mas muito mais elaborado visualmente.

Sistema astrológico integrado: cada carta do Thoth tem correspondências astrológicas explícitas que influenciam o design visual. As decanas astrológicas dos Arcanos Menores são representadas visivelmente nas composições.

O Sistema de Thelema

Para compreender plenamente o Tarô de Thoth, é necessário pelo menos uma familiaridade básica com o sistema Thelema que o inspira. O conceito central de Thelema é a “Vontade Verdadeira” (True Will) — a ideia de que cada ser humano tem uma missão ou propósito único que, quando descoberto e seguido, harmoniza o indivíduo com o cosmos.

A Lei de Thelema, “Faz o que queres será toda a Lei. Amor é a lei, amor sob vontade”, não é um convite ao hedonismo sem limites (como Crowley sabia que seria interpretado, e como provocativamente o apresentava), mas uma afirmação de que a realização da Vontade Verdadeira — o propósito mais profundo do ser — é o ato sagrado supremo.

O Tarô de Thoth, lido através desse prisma, torna-se um mapa da jornada de descoberta e realização da Vontade Verdadeira.

Como Usar o Tarô de Thoth

O Thoth é considerado um baralho avançado — não recomendado como primeiro baralho para iniciantes, justamente por sua densidade simbólica e a necessidade de familiaridade com sistemas como astrologia, Cabala e Thelema para extrair seu máximo.

No entanto, para tarologistas com experiência e disposição para estudar, o Thoth oferece uma profundidade interpretativa incomparável. Seu livro de referência — “O Livro de Thoth” (The Book of Thoth) escrito pelo próprio Crowley — é um dos textos mais densos e reveladores já escritos sobre Tarô.

Além do livro de Crowley, comentários de estudiosos como Lon Milo DuQuette (“Understanding Aleister Crowley’s Thoth Tarot”) são recursos acessíveis que contextualizam o baralho de forma menos intimidante.

O Legado do Tarô de Thoth

O Tarô de Thoth influenciou profundamente o desenvolvimento de baralhos posteriores e a abordagem ao Tarô esotérico. Sua ênfase na correspondência astrológica precisa, no simbolismo cabalístico detalhado e na geometria visual como portadora de significado espiritual estabeleceu padrões de rigor que muitos criadores de baralhos subsequentes procuraram emular.

Mesmo para quem não usa o Thoth como baralho principal, estudá-lo é uma forma eficaz de aprofundar a compreensão do simbolismo do Tarô em suas dimensões mais esotéricas — e de confrontar, através das imagens perturbadoras e belas de Harris, as dimensões da experiência humana que o Tarô convida a conhecer.